Governo novo mas com cara de velho
21.11.1998
Num conto genial intitulado “O estranho caso de Benjamin Button”, o escritor americano Scott Fitzgerald conta a história de um sujeito já entrado nos anos que, de repente, em vez de envelhecer, obedecendo ao curso natural das coisas, desandou a rejuvenescer. Aos 50 anos, tinha cara de 30; aos 60, estava convertido num rapaz de 20; aos 70, fazia, peraltices como um garoto de 10; morreu aos 80, voltando para o escuro do útero da mãe, com um vagido que lembrou vagamente seu choro no momento em que viu a luz pela primeira vez. É um alegoria da América da depressão, sonhando com o retorno à alegre década de 20. O futuro ficara lá atrás.
Vivesse Fitzgerald hoje no Brasil e talvez escrevesse “O estranho caso do segundo governo Fernando Henrique”. O rebento não nasceu ainda, mas já está enrugado como um maracujá de gaveta. Da reeleição para cá, envelheceu uns 20 anos. Desse jeito, no dia 1? de janeiro, quando for empossado, como se fosse um Button às avessas, estará caminhando apoiado em bengalas antes mesmo de ter engatinhado.
A sensação de que o filme “Fernando Henrique II – A missão” é velho deve-se em
parte à situação da economia. Juros altos, declínio na produção, aumento do desemprego etc tendem a produzir um ambiente de pessimismo, no qual as pessoas olham com nostalgia para o passado, e não com confiança para o futuro. Mas, em boa medida, o clima de cansaço advém também das circunstâncias políticas. Na coalizão governista, já foi dada a largada para a corrida presidencial de 2002. Briga-se por tudo e por qualquer coisa.
O presidente pretende criar o Superministério da Produção e entregá-lo a um paulista tucano? Lá vem o presidente do PFL, Jorge Bornhausen, e bombardeia a novidade. Estão para sair os cortes no orçamento, preparados pela dupla Pedro Malan e Pedro Parente, novos benjamins dos pefelistas? É a vez do tucano José Serra passar por cima de Fernando Henrique, puxando o tapete da área econômica. Há o risco de que o ministro da Saúde saia fortalecido do episódio? Toca, então, ao senador Antônio Carlos Magalhães mostrar com quantos paus se faz um presidente. Estivesse no comando, e Serra estaria no olho da rua.
O PSDB acha que lhe convém vazar a história do dossiê e do grampo? Logo a maçaroca chega às mãos da imprensa. O caso começa a amainar, com saldo positivo para os tucanos? Imediatamente alguém no palácio escorrega para um jornalista trechos das fitas, deixando mal Mendonça de Barros. Quando ele vai depor no Senado só os tucanos defendem-no. Os demais caciques governistas lavam as mãos e, depois, comemoram o desgaste do ex-quase ministro da Produção. É a lei da selva.
Casa de Irene
Se Fernando Henrique não tomar providências urgentemente, logo, logo perderá o controle da situação. Até o momento, sua autoridade como comandante-em-chefe da coalizão governista, embora tenha sido arranhada, não foi quebrada. Os tiros trocados entre os partidos governistas, mesmo tendo feito vítimas aqui e ali, não chegaram a deflagrar uma luta de vida ou morte entre as várias famílias. Ainda dá, portanto, para botar ordem na casa. Mas, se nada for feito, em breve os estragos serão irremediáveis.
Rio abaixo
Em tese, a oportunidade ideal para o presidente dar um freio de arrumação na coalizão governista é a reforma ministerial, que tende a se concretizar em fevereiro, depois de aprovada a emenda constitucional que prorroga a CPMF e eleva suas alíquotas. Não dá para antecipar a reforma, porque eventuais descontentamentos nessa área poderiam ricochetear no coração do ajuste fiscal. Mas é impossível também deixar o barco correr ao sabor da correnteza por muito tempo. Ou a tripulação se entende, ou o desastre é certo.
Época, 21/11/1998
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